4 horas no CT: bastidores da decisão do Corinthians sobre Memphis

Foto: Marcos Ribolli
Foto: Marcos Ribolli

A decisão de Osmar Stabile de não renovar o contrato de Memphis Depay provocou mal-estar no departamento de futebol do Corinthians. Depois de meses de negociações e com diferentes setores do clube alinhados para a assinatura, o presidente comunicou sua posição a Fernando Diniz e Marcelo Paz na última terça-feira, pouco antes de a delegação viajar à Argentina para enfrentar o Rosario Central pela Libertadores.

Stabile chegou ao CT Joaquim Grava disposto a encerrar as tratativas e permaneceu aproximadamente quatro horas no local. Minutos depois de sua saída, o Corinthians publicou o comunicado oficial anunciando que Memphis não permaneceria no clube.

Foi durante o embarque para a Argentina que os jogadores tomaram conhecimento do desfecho. Parte do elenco demonstrou insatisfação com a maneira como a situação foi conduzida, aumentando o desgaste da presidência com um grupo que já convive com atrasos de salários, direitos de imagem e premiações.

Foto: Marcos Ribolli - corinthians
Foto: Marcos Ribolli

Por que a decisão sobre Memphis causou incômodo no Corinthians?

A forma e o momento da comunicação pesaram no ambiente interno. Diniz e Paz defendiam a permanência de Memphis: o executivo participou diretamente das negociações, enquanto o treinador havia se manifestado publicamente a favor da continuidade do camisa 10.

Zakaria Labyad, indicado por Memphis ao Corinthians, também demonstrou apoio ao holandês. O meio-campista publicou no Instagram uma imagem relacionada à tradicional comemoração do atacante.

Nos bastidores, Stabile já enfrentava pressão de grupos políticos contrários à renovação. Mesmo aliados do presidente cobravam uma definição mais rápida para uma negociação marcada por sucessivas idas e vindas.

Memphis havia aceitado reduzir condições para permanecer

Para renovar, Memphis concordou com mudanças importantes em relação ao contrato anterior. O atacante aceitou reduzir remunerações, modificar bonificações e assinar por dois anos, apesar de inicialmente desejar um vínculo de três temporadas.

O holandês também concordou em parcelar os R$ 42 milhões que tem a receber do Corinthians.

As partes chegaram a um acordo após superarem novas divergências contratuais, e o documento estava pronto para assinatura desde o último fim de semana. Os departamentos financeiro, jurídico, de futebol e de marketing estavam alinhados para concluir a operação.

O marketing, inclusive, havia encontrado quatro empresas para ajudar a bancar uma verba de R$ 15 milhões prevista no acordo. Dois parceiros também ajudariam a custear mensalmente R$ 250 mil previstos no documento.

Questão política pesou na decisão de Stabile

Apesar do cenário encaminhado, Stabile decidiu não assinar. Pressionado por figuras influentes da política corintiana, o presidente concluiu que o custo de Memphis continuava elevado diante da crise financeira do clube.

— Não podemos comprar títulos. Não entrei com o compromisso de ser campeão, entrei com o compromisso de tentar arrumar financeiramente o Corinthians — repetiu Stabile nos bastidores.

A decisão também mantém aberta outra questão financeira. A dívida de R$ 42 milhões com Memphis pode, segundo as informações divulgadas, chegar a R$ 77 milhões com juros, multa e outros encargos, além do risco de uma disputa na Fifa.

Memphis afirmou ter sido surpreendido e se sentiu traído pelo desfecho.

— Essa renovação foi explicitamente acordada pelo presidente, assim como pelo departamento esportivo, jurídico e financeiro. Algumas pessoas decidiram, no entanto, romper esse compromisso — escreveu o holandês.

A passagem de Memphis pelo Corinthians chegou ao fim, mas o caso permanece aberto fora de campo. Além das consequências políticas e esportivas da decisão, clube e jogador ainda terão de lidar com a pendência financeira e seus possíveis desdobramentos jurídicos.